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26 março 2011

O Caminho a Seguir...

Nestes dois últimos dias, fugi um pouco da minha rotina na escola Barnabé. Fiquei, em parte do meu tempo de permanência na escola, no Laboratório de Ciências entregando os livros didáticos para os pais dos alunos das oitavas séries do período da manhã. É interessante esses momentos que fazemos algo diferente do que estamos acostumados a fazer. A gente observa coisas que até então não tínhamos parado para prestar atenção ou nos concentramos em entendê-las um pouquinho melhor. Conversei com alguns pais. Foi muito interessante, pois as informações vieram complementar minhas percepções destes três anos que estou no cargo de Professor Coordenador Pedagógico desta Unidade Escolar.


Para quem leciona ou trabalha na Escola Barnabé de Santos, sobretudo para os alunos do ensino fundamental, é normal saber que a primeira coisa que se faz necessário é impor limites, combinar regras e coibir a indisciplina. Temos alunos extremamente carentes, eles chegam às dezenas todos os anos. São alunos das mais diversas origens e que vivem, em alguns casos, à margem da inclusão social. Alguns moram em áreas de risco do tráfico de drogas, outros convivem com a prostituição. Muitos moram em quartinhos de cortiços, seis ou sete pessoas partilhando poucos metros quadrados. Outros tantos habitam casas em situações precárias nos morros. Junto a estes alunos, uma parcela possui boas condições de vida, tem celulares sofisticados e se vestem com roupas compradas em shoppings.


Conversando com algumas mães, fiquei contente em perceber que existe, agora, uma geração delas, que se preocupa e MUITO em acompanhar o rendimento de seus filhos na escola. Não apenas na questão disciplinar, mas também na aprendizagem. Mães preocupadas com a resolução das lições de casa e na elaboração dos trabalhos escolares de seus filhos. Ainda são poucas, mas esta parcela de mães está nitidamente aumentando.


Outra coisa que me chamou a atenção é o fato de alguns alunos virem de longe estudar no Barnabé, muitos que moram na cidade vizinha, São Vicente, estão matriculados em nossa escola. Inclusive um caso que me chamou muito a atenção, vem da Vila Margarida que fica quase na divisa entre São Vicente e Praia Grande, coisa não muito comum no Ensino Fundamental, mas que já estão aparecendo em maior número.


Fico contente em perceber que uma escola localizada no Centro Histórico de Santos, próximo aos morros e aos cortiços atraia tantos alunos de longe. Muitas famílias estão preocupadas hoje em dia com a a boa convivência na escola, com a existência de regras de conduta, buscando uma participação mais pacífica entre os alunos. Felizmente, a Escola Barnabé tem oferecido um pouco de tudo isto. A escola não é perfeita. Mas professores, funcionários e equipe gestora tem feito um bom trabalho neste sentido.


Uma das mães que atendi, que trouxe seu filho transferido de outra escola , elogiou muito o fato dos alunos fazerem fila na hora da entrada, de cantarem o hino e de existir o chamado mapa de sala de aula. São coisas ditas antiquadas por parte de alguns pesquisadores da área da Educação, mas que se fazem necessárias em escolas onde muitos alunos chegam sem limites e sem bases educacionais para a boa convivência entre seus pares. Se existe na última década interesse e investimentos do governo estadual para a popularização/massificação do ensino básico e se muitos dos alunos que antigamente não estariam freqüentando os bancos escolares, hoje o estão, isto significa que alguns métodos ditos tradicionais ainda precisam ser utilizados, pois tais alunos ainda precisam aprender a seguir regras e respeitar hierarquias.


Fico contente em saber que mesmo diante das inúmeras dificuldades do dia a dia, nossa escola continua sendo muito procurada, existem listas de espera e muitas mães confiam a guarda de seus filhos nas mãos de nossos profissionais. Sinal que, mesmo com nossos tropeços, normal em qualquer instituição, estamos realizando um trabalho que agrada muitos pais e responsáveis. Claro que ainda precisamos de muito investimento: capacitação de professores, equipe técnica e funcionários; contratação de mais profissionais; investimentos em algumas instalações como o laboratório de informática; melhorar o rendimento dos alunos com dificuldade de aprendizagem. De qualquer forma, existe um trabalho sério que vem sendo feito há mais de vinte anos e que se consolida no dia a dia da rotina escolar. Existe um caminho a seguir e objetivos traçados, coisas muito importantes para qualquer instituição que se leve à sério.

23 dezembro 2010

A GEOGRAFIA MUDA

Outro dia, numa reunião pedagógica, escutei alguém afirmar que a Geografia muda à toda hora. Naquele momento, concordei em parte. A Geografia muda aos poucos.

Já em casa, refletindo sobre o assunto, percebi que a Geografia está mesmo em constante mudança, porém, a  velocidade desta mudança se altera conforme a idade que a pessoa tem. Para um aluno de 10 anos de idade  que cursa o Ensino Fundamental pode-se dizer que a Geografia muda muito pouco. Na minha idade, já beirando os 40, definitivamente ela muda um pouco mais. Já posso, inclusive, começar a afirmar que ela muda quase que constantemente, como gostam de dizer quem já tem mais de 60.

60 e poucos anos são mais de meio século de vida. Por sinal, é quase uma vida inteira. Em 60 anos, definitivamente, as coisas mudaram, e muito. Países novos foram criados e outros tantos sumiram do mapa. A População brasileira quase que quadruplicou. A paisagem urbana, então, está muito diferente daquela que existia na década de 1950. Imensas áreas verdes foram dizimadas, milhões de pessoas migraram. Houve toda uma revolução tecnológica, sobretudo nas comunicações.

Definitivamente, sábias palavras. A Geografia muda.

Todas as outras disciplinas também parecem caminhar e se modificar com o tempo. Em Ciências, por exemplo, sempre tem uma novidade: reciclagem de lixo, espécies novas descobertas, mudanças climáticas. História incorpora novas informações a todo o momento e sempre refaz leituras de si mesma.  Arte é pura criatividade abarcando sons, movimentos, modos de ver e pensar o estético. Até mesmo a Língua Portuguesa se renovou, com o novo acordo ortográfico é preciso reaprender tanta coisa de gramática.

É, o tempo não para e a Geografia vai se renovando ao longo do tempo, conforme o ritmo das idades e das transformações das sociedades.

08 dezembro 2009

Filosofar: Base de uma Educação de Qualidade

Segundo Antonio Gramsci em toda atividade humana está contida uma concepção de mundo e se todos têm uma concepção de mundo, todos filosofam, mesmo que isto ocorra de forma inconsciente. Em outras palavras, todo ser humano é filósofo, uma vez que todos pensam ou podem pensar o mundo de forma particular, quase que única. Porém, esse pensar o mundo não se limita sempre a ter idéias próprias, muitas vezes, a concepção de mundo está intimamente ligada ao que os outros pensam, ou seja, uma concepção de mundo imposta. Para Gramsci essa postura deve ser evitada e todos deveriam elaborar sua própria concepção de mundo. Neste ínterim aparece a afirmação de que a filosofia é algo difícil, quando as pessoas param de pensar por conta própria e passam a incorporar idéias impostas por outrem e passam a viver a vida como se todas estas idéias fossem verdadeiras, elas se sentem, muitas vezes, incapazes de pensar por conta própria, desconfiando, inclusive, de suas próprias idéias. Daí acreditar que filosofar é uma atividade intelectual que deve ser feita apenas por cientistas profissionais.

As idéias de Gramsci vêm complementar os pensamentos propostos por John Dewey em sua concepção de educação. Para Dewey, a educação deve ser vista como um processo onde se busca formar disposições fundamentais, intelectuais e emocionais nos seres humanos em relação à natureza e aos outros seres humanos. Assim sendo a filosofia seria ou deveria ser a teoria geral da educação.

Ao se acreditar que, com a educação, pode-se desenvolver nas pessoas formas fundamentais de pensar e agir, bases intelectuais reflexivas, o aperfeiçoamento cognitivo, certamente que se está desenvolvendo nelas uma forma particular de ver o mundo. Ou seja, nesta visão, a educação contribui para desenvolver nas pessoas uma concepção de mundo. E se isto ocorre, é porque dentro de todo esse processo intelectual, cognitivo e emocional, os atributos da filosofia estão sendo utilizados.

Em sala de aula, quando professores trabalham seus conteúdos de forma reflexiva e crítica, certamente que estarão utilizando o método filosófico. Portanto, dentro da perspectiva da educação, é em sala de aula que se pode nitidamente perceber a função da filosofia. Ao se refletir sobre as condutas morais e intelectuais nas diversas situações que o ser humano perpassa, a filosofia está sendo feita.

Portanto, concordo com a visão de Dewey quando afirma que a filosofia pode ser definida como a teoria geral da educação, as pessoas aprendem de fato, quando refletem, quando contrapõem opiniões e visões de um mesmo assunto e, sobretudo, quando chegam às suas próprias conclusões. Portanto, a filosofia pode ser considerada como a mola mestra da educação, com ela é que é possível se fazer uma educação de qualidade, melhorando o aprendizado dos alunos e contribuindo para a formação de cidadãos críticos e que tenham uma postura mais participativa em nossa sociedade.
Mérito ou politização: Para onde vai a qualidade dos serviços em Educação?

Ricardo Navia, professor doutor da Universidad de La República, de Montevidéu no Uruguai, critica a estrutura educativa das escolas em dois pontos importantes: em primeiro lugar, quanto ao poder de decisão que os chamados funcionários políticos possuem em detrimento dos docentes e supervisores de carreira, sendo aqueles mais sensíveis às pressões do poder em detrimento destes. Num segundo momento, chama a atenção para a existência de uma distorção da carreira docente, na medida em que os altos cargos de supervisão e planejamento não são ocupados através de concurso de méritos intelectuais, mas sim por planos impostos ou pelos chamados “méritos administrativos”.

Para Navia, que é doutor em filosofia da educação, os chamados funcionários políticos estariam ocupando cargos mais altos exatamente porque são mais sensíveis às pressões do poder, ou seja, seguem à risca determinações impostas por quem tem o poder político e, assim, acabam conseguindo benefícios e ocupando cargos mais elevados, em detrimento dos funcionários de carreira que estariam mais voltados para os interesses das comunidades escolares e, portanto, não se deixariam levar com tanta ênfase pelas pressões políticas.

Por outro lado, quando um cargo é ocupado por motivos políticos e não por méritos intelectuais, a tendência é encontrar funcionários que se preocupam em agradar quem esta no poder e não fazer o seu serviço visando melhorias em prol da qualidade da educação. Ou seja, atende-se ao interesse de uma minoria que detém o poder e se esquece das necessidades de quem faz uso do sistema educativo em busca de qualidade. Portanto a politização dos cargos na área da educação pode levar à queda na qualidade dos serviços oferecidos e conseqüentemente uma queda na qualidade da educação.

Sob meu ponto de vista, é necessário que a estrutura educativa seja repensada e em muitos casos, modificada. Os cargos em educação não podem ser ocupados apenas por questões políticas, é necessário que haja uma abertura para a contratação de funcionários por méritos intelectuais e que tenham a preocupação em oferecer serviços de qualidade sempre buscando a melhoria da educação. A politização dos cargos em educação é preocupante, sobretudo porque seu objetivo final é beneficiar uma pequena parcela de pessoas em detrimento do interesse da maioria.

25 outubro 2009

Ética: Virtude de uma Comunidade Escolar Feliz


Progressão Continuada, falta de tempo para os pais acompanharem o rendimento dos seus filhos e professores que trabalham nos três turnos para garantir o sustento de suas famílias são problemas comuns à carreira da maioria dos profissionais docentes. Conjugados, esses problemas desencadeiam uma série de tomadas de decisões no dia a dia do professor que desgastados ou sob pressão de interesses sejam políticos ou econômicos acabam abrindo espaço para a postura não ética no cotidiano escolar.

Podemos definir ética como uma reflexão sobre a moral e os bons costumes, que busca numa situação limite a justiça e a harmonia entre os homens. Moral, por sua vez, pode ser considerada uma série de normas de conduta que, de forma prescritiva, dita o comportamento do homem em relação aos seus costumes, hábitos e usos. No cotidiano escolar, assim como na convivência social como um todo, as pessoas estão sujeitas às regras morais do grupo que pertencem, porém com tantos problemas que envolvem a carreira docente e a falta de tempo para uma reflexão mais atenta destes problemas, os profissionais da educação correm o risco de dar créditos à falta de ética na resolução dos problemas escolares cotidianos.

Vejamos algumas situações práticas: passar ou não passar de ano um aluno que não fez nada o ano inteiro, apenas brincou e causou uma série de problemas disciplinares, atrapalhando, inclusive, o próprio desempenho de seus colegas? Deve-se seguir, puramente, o sistema da progressão continuada neste caso, levando se em consideração que tal sistema é ditado por uma instância superior no caso da rede pública estadual de ensino do Estado de São Paulo e correr o risco deste mesmo aluno vir ainda pior no ano seguinte? Este mesmo aluno merece estar na série subseqüente, mesmo que sua família não se importe com seus rendimentos escolares, não acompanhe as reuniões de pais e não resolva ou não tenta resolver os problemas que lhe são particulares? O professor, desgastado profissionalmente e trabalhando muitas vezes em até três turnos, precisará “engolir” este mesmo aluno na turma do ano posterior, sentindo-se cada vez menos valorizado quanto profissional que o é?

Responder essas questões, de forma clara e reflexiva, é fundamental para que o trabalho docente continue sendo realizado de forma ética, levando-se em consideração os anseios da comunidade da qual este profissional faz parte. O professor, antes de tudo, deve ser sempre um profissional crítico e reflexivo, que busque entender as demandas sociais, políticas e econômicas de sua época e contribuir para construir uma sociedade mais justa. Claro que deve pensar em seus interesses pessoais, mas deve também pensar nos interesses de seu seguimento profissional e, sobretudo, nos interesses da comunidade escolar da qual faz parte. Entendendo estas diversas escalas da qual faz parte e refletindo de forma ética poderá encontrar soluções em conjunto com os outros professores e gestores da escola e assim conseguir um dia a dia mais harmônico em sua escola.

Sabemos que existe toda uma racionalidade burocrática por detrás do trabalho que o professor exerce, porém, agindo de forma ética e levando-se em consideração as reais necessidades da comunidade escolar da qual faz parte, o professor poderá encontrar soluções para boa parte dos problemas que cercam o fazer docente. Desta forma, tomando decisões assertivas, contribuirá para tornar a comunidade escolar, da qual faz parte, mais feliz. Existindo prazer e felicidade certamente a ética estará presente dentro do grupo da qual faz parte.

07 junho 2009

Reflexões à partir de Maria Montessori

(Atividade) " A professora não pode só ensinar . Ela deve saber ver dentro da alma , para ajudar a criança no seu desenvolvimento . Ela deve formar a personalidade, não só pelo ensino, mas falando à sua alma ,ao seu espírito , à sua inteligência , com compreensão ,humildade e respeito. Esta compreensão não pode sair senão de um espírito eleito ,refinado , que saiba aprofundar os problemas da humanidade. " (Maria Montessori - Revista Memória da pedagogia- n.3)


Maria Montessori revolucionou a educação no mundo , trazendo um outro olhar para a criança. Também o papel do educador muda , pois ela o vê como uma referência, um modelo na educação da criança, o que exige dele uma auto-análise constante de sua atuação em sala de aula. Como você acha que seria possível fazer esse exercício diário ,levando em conta os prazos, horários e pressões da vida moderna? Como o professor pode buscar esse auto-conhecimento , tão importante para sua formação ?


(Opinando 1): Na minha opinião "amar a sua profissão" é um processo construído ao longo do tempo. Confesso que inicialmente eu não gostava muito de lecionar, lidar com crianças e adolescentes. Hoje, quando percebo alguns resultados positivos que foram sendo conquistados ao longo do tempo, vejo o quão prazerosa é a nossa profissão. Quanto mais vamos atuando, mais vamos sentindo o gostinho bom de gostar de educar, mais seguros vamos ficando, melhor vamos direcionando nossas ações e, conseqüêntemente, nossa auto-estima se eleva e, assim, passamos a amar o que fazemos.

(Opinando 2): Precisamos sempre abrir um espaço em nossas aulas para essa troca de afeto e experiências, corrigir posturas e orientar sobre boas maneiras. Acredito que, com a experiência, esta forma de agir se torna praticamente parte da aula.

Porém, em casos extremos, podemos parar completamente o assunto que estivermos trabalhando e dialogar sobre questões como indisciplina, problemas familiares, financeiros, entre outros. Nem sempre o conteúdo da aula é o mais importante em dado momento e abrindo esses espaços para discussão poderemos ganhar a confiança dos alunos que passarão a ser mais participativos.

Afinal, em tese, o aluno precisa confiar "cegamente" que o conteúdo que estamos passando é verdadeiro. Se tivermos de antemão a confiança dele, meio caminho estará andando.

(Opinando 3): Sabe que certa vez participei de uma atividade com vários coordenadores pedagógicos, sendo que em meu grupo ficou uma coordenadora que já trabalhava há anos com crianças excepcionais.

A atividade consistia em identificarmos uma criança em cada escola, que trazia algum problema grave, sobretudo de indisciplina e procurar caracterizá-la, sobre seus medos, seus anseios, suas necessidades. Ao comparamos as respostas sobre as crianças "normais" com as excepcionais, percebemos que as respostas eram sempre muito parecidas: os mesmos medos, os mesmos anseios, as mesmas necessidades. O que variava era a forma de cada uma demonstrar cada uma dessas características.

Fiquei surpreso com o resultado final. Nosso grupo concluiu que definitivamente somos todos iguais. Temos perspectivas e medos semelhantes. Talves apenas mude o ritmo de cada um. O ritmo cognitivo e de amadurecimento emocional podem ser desigual, porém, como seres humanos, percebemos que crianças excepcionais se igualando a todas as outras. Afinal, todos somos seres humanos.

(Opinando 4): Eu particularmente, penso da seguinte forma. Não é fácil cuidar da educação dessas crianças que chegam extremamente "chucras" em nossas mãos. E queiramos ou não a realidade é essa. Sobra para a gente educar mesmo. A gente pode cruzar os braços e reclamar, apontar os defeitos. Ou então, arregaçarmos as mangas e irmos em frente, ou seja, enfrentarmos o desafio de educar esses meninos e meninas que chegam até a gente todos os anos tão desamparadas, tão sofridas e tão rudes.

Não é fácil não. A briga é feia. Muitas vezes, nos casos extremos, temos que ser autoritários mesmo. Darmos broncas, sermões, "chacoalhar" essa molecada. Transformar água em vinho, literalmente. Depois do tratamento de "choque" é que podemos trabalhar a parte cognitiva, de entendimento sobre o que é educação.

Não sei como vocês costumam enfrentar tudo isso. Sei que é muito difícil. É uma luta inglória, mas que a médio e longo prazo dão resultados sim. Pois, com o tempo, você consegue se aproximar deles e, finalmente, chegar à sua alma. Entender os problemas e buscar minimizá-los.

Agora, definitivamente, muitos pais não estão nem aí mesmo. Sobra para a gente mesmo. Já escutei a seguinte fala: "Esses pais são todos uns folgados, eles não dão jeito em seus filhos e querem que a gente dê".

E vou ser sincero, em muitos casos a gente até consegue. Mas é uma luta muito difícil. Em outros momentos, a gente percebe que não tem jeito mesmo e deixa que a própria vida vai se encarregar do futuro deles.

(Opinando 5): Gostaria de responder essa atividade relatando um caso que aconteceu essa semana comigo.

A mãe de uma aluna de 5ª série (6º ano) veio conversar comigo preocupada com a filha que esteve faltando na escola nas duas últimas semanas. Ela chegava até a porta da escola, começava a chorar e ia embora para casa.

Conversando com a mãe, descobri que eles estavam passando por um momento delicado financeiramente e que já não pagavam o aluguel da casa por um bom tempo. A dona do imóvel, depois de insistentes cobranças, certo dia, invadiu a casa, quebrou os móveis e agrediu fisicamente a mãe dessa aluna.

Isso causou um trauma muito grande e insegurança na menina que passou a ter problemas emocionais e não querer mais vir à escola com medo que alguma coisa pudesse acontecer em casa, enquanto sua mãe estivesse por lá.

Conversei com a aluna, falando para ela de forma calma e verdadeira, citando exemplos que acontecem à toda hora com muitas pessoas. Todos têm problemas pessoais e nem por isso deixam de estudar, trabalhar, etc.

Pedi para ela que tentasse ficar naquele dia e fosse fazendo as coisas com calma e se ela se sentisse mal viria falar comigo que eu ligava para a casa da mãe e a mãe viria buscar. Falei para ela fazer as coisas aos pouquinhos, que se no dia seguinte não se sentisse bem, não viria para a escola, mas que tentasse no dia seguinte de novo. Orientei que fosse ganhando confiança aos poucos até o momento que conseguisse voltar de vez. Exatamente como fiz no meu serviço. Falei para ela que, se eu consegui voltar a dar aulas e agora até virei coordenador, ela também conseguiria voltar e terminar não só a 5ª, mas todas as séries subseqüêntes.

Resultado: a aluna a partir de terça-feira não mais faltou na escola e está se sentindo melhor. Semana que vem vou tentar conversar com ela, se sobrar algum tempo, pois tenho andado atarefadíssimo.

Acredito que não é fácil fazer um trabalho quase que individualizado, enxergando dentro da alma de cada criança e tendo paciência e compreensão com elas, sobretudo por serem muitas (na minha escola são quase 300 alunos do fundamental II) e os problemas de toda a ordem. Porém, sei também que o exemplo que dei a ela, será repassado para outros coleguinhas e outras mães e que em "cadeia" poderá atingir indiretamente outros alunos que estejam com problemas emocionais semelhantes.

Na minha opinião, o ponto de partida é mesmo ser verdadeiro, ter calma ao falar com o aluno, respeito, compreensão e humildade. Outra coisa importante é rever o que foi feito antes em situações parecidas e perceber o que deu certo ou errado. Em alguns momentos, é vantajoso gastar um pouco do precioso tempo resolvendo uma questão como essa, pois se eu não fizesse isso agora, a coisa poderia se agravar e traria outros tipos de conseqüências.

As leituras que tenho feito durante esses quase dois meses de curso tem me ajudado muito. Aprender mais sobre educação, estudar, faz a gente refletir, repensar situações e ter posturas diferentes. Isso ajuda muito na busca do auto-conhecimento e corrige nosso comportamento durante a atuação profissional. Outra coisa que também acredito ser importante é participar dos fóruns aqui, falar as coisas que pensamos, sentimos, como agimos, pois no processo de relatar algo, estamos aprendendo e revendo conceitos também.

(Opinando 6): Realmente, é necessário muita sensibilidade e jogo de cintura. Sabe, esse é um exemplo dos diversos casos de problemas famíliares que a gente escuta todos os dias.

Mas tem o outro lado da moeda também. Existem muitos alunos danados, espertinhos, debochados e que precisam de limites muito bem impostos. Quando se juntam em sala de aula podem colocar a sala abaixo. Não é fácil não.

Agora, realmente, é muito bom quando a gente consegue chegar à alma da criança e descobrir que conseguimos realmente ajudá-la. Faz um bem muito maior do que se simplesmente eu a tivesse ignorado e continuasse fazendo alguma atividade burocrática.

28 maio 2009

Quando se Ensina, também se Aprende

Através da leitura da "Carta de Paulo Freire aos professores - Ensinar, aprender: leitura do mundo, leitura da palavra " podemos compreender a importância que a leitura crítica de textos e a leitura crítica do mundo têm para o dia a dia de quem tem como ofício a arte de ensinar.

Para Paulo Freire, o ato de ensinar não se desvincula do ato de aprender. Quando ensinamos estamos revendo conceitos já aprendidos e, portanto, reavaliando e reaprendendo. No diálogo que traçamos com quem aprende também reaprendemos, pois perpassamos caminhos inesperados, perguntas surpreendentes e, muitas vezes, quando realmente nos aprofundamos, percorremos linhas de raciocínio diferentes da nossa, portanto abertas ao novo.

O ato de ensinar, como diz Paulo Freire, requer “uma analise crítica de sua prática”. Além disso, o ensinante precisa, antes de tudo, estar capacitado para ensinar e, para tanto, precisa estar sempre se atualizando, aprendendo, estudando. O ato de estudar implica em refazer a leitura de mundo e das palavras, reavaliarmos conceitos e visões de mundo e, conseqüentemente, enriquecer nossos conhecimentos acrescentando novas leituras de conceitos já estabelecidos.

Nesse contexto, Freire acredita que prática e teoria devem caminhar sempre juntas e nunca desvinculadas uma da outra. Através dos conhecimentos que já temos e daqueles sistematizados pelo homem podemos fazer um confronto com o novo, refletirmos e assim remodelá-los de forma crítica, trazendo à tona novos conhecimentos e descobertas.

Paulo Freire é contra a transferência mecânica de conhecimentos, cujos conteúdos ficam desvinculados da realidade do aprendiz. Para ele é necessário que o aprender se realize de forma critica, levando-se em consideração a linguagem simples (conceitos criados na cotidianidade do aprendiz) e a “linguagem difícil” (conceitos abstratos, já sistematizados). Ao juntarmos o contexto (linguagem simples ) com o texto (linguagem difícil) possibilitaremos uma compreensão mais exata do objeto que estamos estudando e de sua relação com outros objetos. Freire ressalta que essa compreensão do objeto estudado não vem como milagre, mas ela “é trabalhada, é forjada” num “trabalho paciente, desafiador, persistente”. Ou seja, aprender requer muito esforço por parte de quem aprende.

Outro aspecto importante levantado por Paulo Freire está no equívoco que cometemos ao dicotomizar o ato de ler e o ato de escrever. Para ele, ler e escrever são “processos que não se podem separar” e deveriam ser aprendidos dessa forma inseparável desde a alfabetização para que, já na pós-graduação, o ato de escrever não fosse um martírio para muitos estudantes que redigem suas monografias. Ainda segundo o estudioso da Educação, “isso lamentavelmente revela o quanto nos achamos longe de uma compreensão crítica do que é estudar e do que é ensinar”.

Como sempre, Paulo Freire nos abre perspectivas que, mesmo na nossa frente, muitas vezes não conseguimos enxergar. No ato de ensinar o professor está sempre aprendendo e é importante que esteja sempre se atualizando, estudando, lendo para poder refletir criticamente sobre suas ações educativas e assim poder melhorar seu fazer docente. É importante também, que estejamos sempre levando em consideração o conhecimento informal do aluno como forma de facilitar a assimilação do conhecimento formal e assim, fazendo sua leitura de mundo junto com a leitura da palavra possa ter uma visão crítica da realidade que o cerca.

17 maio 2009

Economia Solidária? Alternativa para o futuro?

No final do mês de abril tive a oportunidade de conversar com uma mestre em educação que, especificamente, fez sua dissertação de mestrado a respeito de gestão escolar e, particularmente, abordou, em certo momento, a forma que a escola onde trabalho é gerida.


Claro que fiquei com os neurônios literalmente queimando ao conversar com alguém como ela. Muito inteligente e culta. Mas certamente foi um momento de muita aprendizagem e prazer.

Em nossa conversa, acabamos entrando na questão do discurso utilizado por professores e gestores que serve como alavanca para o ensino e perspectiva de futuro para os estudantes. Ou seja: Por que estudar? Para que estudar? Que futuro nossos alunos esperam da vida?

A maioria de nós ainda utiliza como resposta o mesmo discurso: "É preciso estudar muito para ser alguém na vida. Somente com muito esforço e estudo você vai conseguir um bom emprego, ganhar bem e se destacar na sociedade. Somente estudando é que um dia você vai chegar lá."

Mas será que esse discurso de fato serve para todo mundo? Dá certo com todos? Existe igualdade de condições tanto para o aluno da escola pública, quanto para o aluno da escola particular? Um grupo de alunos de baixa renda terá as mesmas chances e perspectivas de um grupo de alunos de alta renda se os esforços forem exatamente iguais nos dois grupos? Ou leva vantagem quem tem o poder econômico e faz parte de uma elite que abre as portas para empregos, relacionamentos, tempo para dedicação aos estudos, entre outros?

O tema que mais me chamou a atenção e que acredito ser um dos mais importantes em Sociologia da Educação foi mesmo a "Sociologia Crítica". Enxergar o mundo através dessa visão não é fácil. Porém, somente entendendo de forma crítica a realidade é poderemos propor mudanças e decidirmos o que pretendemos manter.

Não estou com tudo isso falando que não sou a favor do esforço e dedicação aos estudos para conseguir uma projeção econômica-social. O que quero deixar claro é que este modelo funciona somente para uma pequena parcela da população. Não existe igualdade de condições. E o pior, usar esse discurso em uma escola para alunos de baixa renda pode ser entendido, em muitos momentos, como um discurso vazio. Pois sabemos que a maioria, de fato, não chegará lá.

Neste momento é preciso parar para refletir. Pensar sobre a nossa relação com o mundo/sociedade e o que de fato queremos para o nosso futuro. Quais os nossos valores? O que entendemos por felicidade e bem estar? E, assim, poderemos, quem sabe, encontrar um modelo alternativo.

Acredito que as respostas para todas essas questões, dentro da escola pública, passam sim por continuar se esforçando e se aprofundando nos estudos. Porém, o que muda é o foco. O objetivo, agora, talvez seja encontrar esse modelo alternativo, menos desigual, onde a violência e a pobreza sejam menores. Onde se possa ter uma qualidade de vida boa, se não for para todos, mas pelo menos para a grande maioria.

Conversando com aquela mestra consegui organizar algumas idéias que ainda estavam embaralhadas. Ainda não sei exatamente que caminho e que discurso deveriam ser seguidos. A professora de Sociologia do curso de Pedagogia sugeriu leituras a respeito da Economia Solidária que me parece uma alternativa muito interessante.

Apenas uma certeza parece estar clara: somente continuando os estudos e se aprofundando é que poderemos encontrar respostas para todas essas questões.



26 abril 2009

Educação Formal e Conhecimento Popular

Acredito que a escola e a comunidade se relacionam através da educação formal e do conhecimento popular. Na escola, de forma geral, aprendemos, através das diversas disciplinas, os conteúdos com base científica. Por outro lado, os alunos trazem através de suas vivências um rico conhecimento do dia a dia, o que chamo aqui de conhecimento popular.



Quando um professor consegue conciliar a bagagem cultural que o aluno trás de casa com o conhecimento formal representado pelo conteúdo de sua disciplina, transformando informação em conhecimento, acredito que a relação entre a escola e a comunidade é verdadeiramente produtiva. As vivências cotidianas são enriquecidas pelo conhecimento científico e este passa a dar sustentação para aquelas.


O conhecimento da Sociologia tem uma grande importância no dia a dia do professor, pois nos ajuda a entender a diversidade humana e a forma como nos relacionamos com a sociedade e com o meio em que vivemos. Refletindo e conhecendo esta relação, poderemos propor e incorporar mudanças para tornar o convívio em sociedade mais saudável.


A educação é fundamental não somente para adquirirmos mais conhecimento, mas para que possamos contribuir na construção de um ambiente e uma sociedade mais agradável para se viver. Conhecendo como fomos e entendendo como somos, poderemos ajudar na construção de uma sociedade mais feliz.